Confesso: tenho gostos absurdos, desejos insanos, sonhos imensos, verdades confusas, mentiras sinceras, segredos a mostra. Apesar do que pesa sobre mim, tenho um prazer absurdo em sentir gostos de coisas aparentemente insípidas.
Existe uma bipolaridade positiva em meu ser, se é que isso não soa ambíguo demais. Gosto desgostando. É como odiar a sociedade por suas futilidades, mas, render-se a maioria delas. São tentações, coisas que raramente consigamos resistir. Não nego, não omito. Vivo.
Só gostaria mesmo de saber se existe gosto mais gostoso que o sabor de um abraço bem dado. Acredito que toda forma de carinho seja valida. Beijos, olhares, carícias, mas, ainda assim, gostaria de saber: existe gosto mais gostoso que o sabor de um abraço bem dado?
Abraços são trocas de energias que entram na mesma sintonia com o aproximar dos corações. Braços em forma de circunferências quase perfeitas que só têm um objetivo: Fazer-se sentir.
Odeio a banalização do abraço. Odeio saciar convenções impostas com o objetivo de me fazer gastar abraços bem dados. Aperto as mãos, gasto menos calor, menos energia, poupo meus abraços para quem julgar merecer.
A gente vive dias de cão. Uns de raça, outros vira-lata. A gente valoriza o couro depois que lhes colocam uma marca. A gente se apaixona pela forma que ganha o algodão através de uma etiqueta, um bordado, uma estampa. A gente enlouquece por muito, que, às vezes, é muito pouco.
Repito: É como odiar a sociedade por suas futilidades, mas, render-se a maioria delas. O mundo é capitalista, alguns justificariam assim. Mas a questão não é essa. A questão é o meu prazer por coisas aparentemente insípidas. Ganhos simbólicos.
Existe todo um regozijar-se por ouvir: “lembrei de você” “senti sua falta” “como você está?”. Existe todo um prazer por detrás da importância que temos para as pessoas. As pessoas de verdade. As importações de verdade.
Uma lição já tirei da vida: tem que valer a pena. Não importa o quê, não importa quem. Têm que valer a pena. Se viver é isso que fazemos todos os dias do acordar ao pegar no sono, veementemente afirmo: tem que valer a pena.
Pra mim, voar é sair do chão mesmo que meus pés ainda permaneçam em terra. E, hoje, a vida tem que me fazer voar, mesmo que o destino de tudo que suba seja descer. Descer nem sempre significa cair. Existem suaves pousos e pousos de emergência. Pousos forçados e pousos em queda livre. Existe sabor até no cair.
(O último parágrafo foi escrito dentro do que couber num abraço. Dentro dos universos que são transformados instantaneamente ao senti-lo. Consegue lê-lo?)